A saudade é um sentimento intrigante. Surge de mansinho, se acomoda, e mesmo que tudo
pareça estar na mais perfeita ordem, resta uma sensação de que algo ainda parece faltar. Em certos momentos, sou tomado por uma nostalgia indefinível, uma ausência de algo que não sei nomear. Mas, ultimamente, tenho me questionado: e se essa saudade não for exatamente daqui?
Há momentos em que a vida se assemelha a uma viagem tão longa que, de alguma forma,
descemos em uma escala dessa viagem e permanecemos ali, parados numa estação que, por mais confortável que seja, não é o nosso destino. A sensação de pertencer a outro lugar, de onde partimos já faz muito tempo, aparece em dias comuns, enquanto caminhamos por ruas conhecidas, tomamos nosso café ou observamos as estrelas. Um sentimento silencioso de que há mais, de que existe um “lar” além do que podemos ver.
Cresci em um lar onde dois sentimentos contrastantes se faziam presentes. Meu pai costumava dizer que o amor e a saudade se revelam no olhar, na presença física. No estar junto. Já minha mãe acreditava que a verdadeira saudade era a que sentíamos de nossa casa espiritual. Para ela, ao nascermos, nos distanciamos temporariamente do nosso verdadeiro lar, e essa nostalgia nos acompanha, de maneira quase imperceptível.
Para minha mãe, essa saudade era uma sutil lembrança de nossa origem, do lugar onde realmente pertencemos e para o qual um dia retornaremos. Sempre me inclinei a concordar mais com ela.
É reconfortante saber que a vida na Terra é passageira e que estamos aqui para aprender e
evoluir, o que coloca a saudade em uma perspectiva mais leve e compreensível. Saudade é uma palavra única, pois carrega em si o peso doce da ausência e do amor. Esse sentimento não é encarado como algo doloroso, mas como uma espécie de guia, a nos orientar a continuar rumo à nossa verdadeira essência.
A Terra é uma morada transitória. Nosso verdadeiro lar, lugar de paz e plenitude, nos aguarda mesmo ao fim dessa jornada. Lá, sim, está a casa onde a alma encontra repouso. Um lugar onde não existem os pesos do mundo material, onde os laços de amor se renovam, e onde reencontraremos aqueles que amamos e que, por enquanto, já partiram.
Lembro-me do dia em que minha mãe se foi. Sua partida foi dolorosa, claro, mas havia uma paz nos seus olhos que me marcou profundamente. Pouco antes de seu último suspiro, sentada à mesa para o jantar, ela murmurou algo que permanece comigo desde então: “Estou voltando pra casa”. Naquele momento, não compreendi a grandeza do que ela queria dizer. Hoje, entendo que ela sabia que sua jornada terrena estava completa e que voltaria para o lugar de onde sempre sentiu saudade, mesmo sem saber.
A saudade dos entes queridos que já partiram muitas vezes nos lembra de que, viajores que somos, o reencontro acontecerá. No momento certo. A saudade não é um vazio no peito, mas a confirmação de que, de algum modo, todos estamos aguardando o momento de voltar para casa.
Flávio Monteze
Graduado em Ciências Sociais e pós-graduado em comunicação pela Faculdade Cásper Líbero. Comunicador espírita, trabalhador voluntário do Grupo Espírita Bezerra de Menezes -Gebem- Guarulhos.






