O destino dos rejeitados: A roda 

Flavio Monteze

9/30/2024

Era uma noite fria, daquelas que pareciam carregar todas as tristezas do mundo. A lua, talvez envergonhada, ocultava-se por detrás das nuvens, como se não quisesse testemunhar o que estava por vir. Em uma das muitas esquinas escuras daquela pequena cidade, erguia-se uma construção austera, com paredes espessas e um portão vetusto que guardava um segredo sombrio: nele havia uma portinhola que
recebia as crianças ali depositadas, frutos do abandono familiar.

 

No interior do muro somente Imaculada ainda estava acordada, a refletir sobre a velha portinhola, símbolo de acolhimento e resignação, conhecida por todos como “A Roda” e na qual mães aflitas, frente a um futuro incerto, deixavam seus filhos. A Roda era, antes de tudo, refúgio para os desamparados e rejeitados – assim como ela mesma – como se o destino houvesse traçado, a alguns, um caminho marcado pela dor.

 

Naquela noite, como em várias outras noites igualmente frias e silenciosas, um leve rangido preencheu o silêncio, seguido pelo choro baixo de um recém-nascido. Imaculada apressou-se em atender ao chamado. Seus passos ecoaram pelo corredor de pedras, enquanto ela se aproximava da Roda. E ao abrir a portinhola de madeira, deparou-se com uma pequena criatura envolta em trapos – e junto dela um bilhete, no qual se lia apenas “cuida do meu pequeno José”.

 

Com o coração apertado, tomou José em seus braços e, ao olhar para o pequenino, sentiu uma mistura de tristeza e compaixão. Quantos mais passariam por ali, deixados por mães que, entre lágrimas e orações, viam-se obrigadas a abandonar seus filhos na esperança de que ali encontrassem um destino melhor?

 

Imaculada acreditava que nada acontecia por acaso. Sua vida de fé e de entrega ao próximo lhe ensinara que tudo na vida tinha um propósito. Mesmo em momentos tão dolorosos, havia uma razão maior por trás de cada ação, um aprendizado a ser colhido não apenas por quem sofria, mas por todos que testemunhavam o sofrimento. E que, assim como um dia havia sido ela a chorar na Roda, clamando
por amor e alimento, era chegado o momento dela mesma se dedicar aos recém-chegados.

 

Enquanto conduzia José para junto das demais crianças, Imaculada, ainda nos primeiros anos da adolescência, imaginava que aquele pequeno ser, rejeitado pela mãe, carregava consigo um passado desconhecido, repleto de experiências e desafios. Para ela, cada espírito nasce com a missão de aprender e evoluir, e as dificuldades encontradas no caminho são lições essenciais para essa jornada.

 

Naquele instante, Imaculada foi tomada por uma paz serena. O desespero que antes consumira tantas noites, ao testemunhar o abandono dos inocentes, agora cedia espaço à compreensão. Aqueles pequeninos, frequentemente trazidos à Roda, eram almas antigas, carregando consigo o peso de suas próprias histórias, de algum modo entrelaçadas com as das mães que, entre lágrimas, ali deixavam seus filhos. Era um ciclo de aprendizado mútuo, onde o amor e o perdão se revelavam como grandes lições.

 

Na roda das reencarnações, todos enfrentamos provas destinadas a nos tornar melhores. Imaculada sabia que a sociedade costumava julgar com severidade certas mulheres: mães que, sem condições materiais para cuidar de seus filhos, eram vistas como frias e insensíveis, capazes de abandoná-los sem remorso.

 

Mesmo ela, iluminada pelos princípios que brotavam espontaneamente em seu coração, encontrava dificuldade em explicar como o medo, a pobreza e a desesperança podiam se transformar em forças que levavam uma mãe a tomar decisões que nunca desejaria. Ainda assim, Imaculada acreditava que, em algum
momento, essas mães seriam capazes de superar suas culpas.

 



Flávio Monteze
Graduado em Ciências Sociais e pós-graduado em comunicação pela Faculdade Cásper Líbero. Comunicador espírita,  trabalhador voluntário do Grupo Espírita Bezerra de Menezes -Gebem- Guarulhos.