Junho chega trazendo a alegria das festas típicas, as bandeirinhas no alto e os sabores da tradição popular. Diante disso, muitos corações se perguntam: como conciliar a vivência dessas festas com os ensinamentos do Espiritismo? Há espaço para a cultura popular no caminho da elevação espiritual? A crônica a seguir propõe uma reflexão singela e inspiradora à luz da Doutrina Espírita, lembrando que a verdadeira espiritualidade não exclui o mundo, mas nos ensina a viver nele com consciência e amor.
Fogos no céu e luzes na alma
Junho chegou com sua roupa de chita, suas bandeirinhas penduradas em varal de nuvem, e seu cheiro de pipoca que parece abraçar até quem não está comendo. Nas ruas de terra ou nos salões das cidades, as quadrilhas se armam como quem dança a própria memória. E lá vamos nós, de novo, girar em torno de São João como quem gira em torno de algo maior!
Houve tempo em que eu me perguntava se festa assim “pedia licença” ao céu. Se era certo enfeitar o corpo e soltar fogos enquanto tantos ainda choram a dor do mundo. Mas bastou assistir, com os olhos de minha alma, ao riso de uma criança comendo bolo de fubá, pra entender que Deus também se manifesta nos detalhes da simplicidade.
No centro espírita, naquela noite de estudos sobre “O Evangelho segundo o Espiritismo”, alguém perguntou se o festejo junino era compatível com a doutrina. O dirigente, sereno, respondeu: “Depende da intenção com que se vive.” E ficou por isso mesmo. Porque às vezes a resposta não precisa de parágrafo: só de pausa.
O Espiritismo nos ensina que o bem e o mal não estão nas coisas, mas no uso que delas fazemos. Assim, a festa pode ser um momento de luz ou de sombra. Depende se dançamos por gratidão ou por vaidade, se brindamos para celebrar ou para esquecer. Se nos reunimos para somar afetos ou apenas para buscar aplausos.
Lembro da minha mãe, católica de fé firme, que pedia bênção a Santo Antônio com a mesma doçura com que rezava pelos espíritos que, segundo ela, “andavam perdidos, precisando de reza e de milho verde.” Ela não lia Kardec, mas fazia caridade com a mão e com o fogão. E eu aprendi ali que toda crença que se traduz em amor é ponte, não muro.
Na festa junina do bairro tem forró e oração. O arraiá é beneficente e tem correio elegante com mensagens de paz. E tem fogueira, sim. Mas ela aquece mais do que queima. Porque o fogo de fora é só símbolo. O importante mesmo é o fogo de dentro: aquele que nos move a fazer o bem, com alegria no coração.
No final da noite, olhando pro céu salpicado de fogos, me pego pensando que talvez os espíritos superiores também dancem. Talvez assistam, sorrindo, quando celebramos a vida com humildade, gratidão e propósito. Porque a verdadeira evolução espiritual não exige cara fechada nem silêncio absoluto. Basta consciência em cada passo que damos, mesmo quando é no compasso da sanfona.
E se Kardec estivesse aqui, acho que escreveria algo assim: “Felizes os que sabem dançar com o corpo sem esquecer da alma.”
Boa festa, boa dança, e que a chama que acendermos seja sempre luz, nunca vaidade.






