No artigo anterior "Contato com os Sentimentos" trouxe o segundo tema do Método de Acolhimento Ato de Amor do Projeto Acolher Perdas e Luto e neste artigo vou trazer o terceiro tema "Aprendendo com a Dor". Vamos falar sobre validar a dor, como processo colaborativo no desenvolvimento humano.
Toda dor é um convite para amadurecermos e fazermos um balanço. Convida a uma mudança de rota, que oportuniza uma visão de realidade diferente. Passamos experiências que doem, porém que nos facilitam a nos autoconhecermos. A dor chega às vezes previsível e em outras inesperada. Muitos não têm respaldo emocional para lidar com a dor do desafio e colapsam. Outros buscam ajuda necessária, e lidam com equilíbrio e serenidade.
Muitas culturas, como acontece com a nossa, não validam a morte como parte do ciclo da vida. Apesar de todos já terem vivenciado ou irão vivenciar a morte em algum momento, a maioria prefere não pensar sobre isso. Automaticamente a colocam na sombra. Como tudo que não cuidamos, gera medo, insegurança e ansiedade, e a tornamos ainda mais desafiante, quando ela toca a nossa realidade de perto.
Vários ambientes devido ao seu contexto religioso, interiorizam a morte como um castigo divino. Esta crença gera muito sofrimento e culpa.
Quem já não falou ou não escutou: O que eu fiz para merecer isso? Por que Deus fez isso comigo? Por que ele levou meu amor ? Isso é injusto. Ele era tão bom. Ele era tão jovem. Ele não merecia. Então, acabamos alimentando a crença de que morrer é algo não merecido.
Como consequência, por não lidarem com a morte com naturalidade, isso vai refletir diretamente no tipo de acolhimento oferecido. Ao invés de buscarmos acolher escutando a dor do outro e possibilitar que ele lide com suas emoções para poder aliviá-las, tendemos a manter a morte neste lugar obscuro. Assim, não temos que olhar para nossos próprios medos. Desta forma, não conseguimos nos ajudar e nem ajudar o outro a lidar com seu desafio. Devido também às cobranças comportamentais que nos são impingidas não conseguimos desmistificar a morte em nossa vida.
Muitos enlutados acabam por agravar seu estado, por se sentirem incompetentes em praticar estas diretrizes. Como também, podem se sentir excluídos, cancelados, solitários, incompreendidos, pois além da dor do luto, ainda não têm espaço e companhia para compartilhá-la.
Seguem ouvindo frases automatizadas, daqueles que não querem entrar em contato com os seus medos internos: “ Você vai superar”, “o tempo vai passar", "vai ficar tudo bem”, “aceita a vontade de Deus”, "a vida continua", "bola pra frente".
Como Lidar com a Dor:
Vou dividir um pouco da minha jornada no luto. Eu via o olhar perdido das pessoas, sem nenhuma experiência, trazendo estas frases vazias acima. Vendendo uma esperança que nem elas tinham. Pois ao mesmo tempo diziam como eu era forte, porém que em meu lugar, enlouqueceriam.
Este acolhimento sem rumo, ampliou no início a bagunça emocional que eu sentia, pois parecia que ninguém tinha um caminho para me mostrar. Então, entendi que era um caminho que somente eu poderia encontrar. Parecia que não haveria saída. Qualquer lugar ou tempo não me tirava daquele vazio e daquele buraco no peito. Questionei a justiça divina: Por que eu? Por que eles?. Porém eu não ouvia nenhuma resposta.
Notava o desconforto das pessoas ao ouvir minha história. Sabia que as pessoas ofereciam o seu melhor para me ajudar. Porém, percebia o olhar de medo no semblante do outro, se imaginando no meu lugar de mãe.
Passei a evitar dividir a minha dor para não gerar este desconforto aos outros, como também pelo receio de ficar sozinha.
Na jornada do luto precisamos de ajuda. Muitas emoções não acolhidas se agravam, somatizando em doenças físicas e psíquicas. Como depressão, síndrome do pânico, transtorno de ansiedade, entre vários outros tipos de fobias, que acabam se desenvolvendo por não sabermos lidar com a morte.
Nesse período eu comecei a compreender que havia uma diferença entre a dor e o sofrimento. A dor é a experiência real que somos acometidos, diante de um evento, um acidente, uma doença ou a partida de um ente querido. Essa dor é real. Quando ficamos paralisados neste sentimento de não aceitação à essa realidade, o sofrimento se instala como um vírus. Quando não entendemos que os desafios dolorosos fazem parte da experiência da vida do ser esta luta consome nossa energia.
Este lugar de negação permite que a vítima comece a crescer dentro de nós. Ainda que inconsciente, ela pode nos levar a outros sentimentos como: indignação, revolta, culpas, negligências ou acreditar que aceitar ou ser feliz é desonrar o ente querido. Isso vai atrapalhar as relações afetivas, gerar isolamento e impor ainda mais sofrimento.
Então, durante esse caminho, nesse turbilhão de emoções algo me fez meditar. Será que ao invés de buscar a superação que todos sugerem para que a dor passe, eu não deveria buscar compreender o que esta dor pode me ensinar?
Percebi que a primeira coisa que eu precisava para trilhar este caminho, era me libertar da terceirização de responsabilidades. Perguntei-me:
Como sair da visão que a dor e a morte são castigos de Deus?
Entendi que precisava me dispor a atualizar a percepção que eu tinha de Deus. Se o sinto como criador, pai, amigo e misericordioso, não há espaço para punição e nem castigos dolorosos. Meu coração sente que tudo que vem do divino é amor e apoio, durante nossa jornada. Percebi que atribuímos muitas dores a Deus, quando na verdade, muito do que passamos são consequências de experiências e responsabilidades nossas, que são o conteúdo de uma sociedade ainda aprendiz do amor.
A segunda coisa que eu entendi, foi que para ir ao encontro a este aprendizado sobre a dor, eu precisava me espiritualizar me conhecendo melhor. Este investimento em mim, trouxe equilíbrio interno e aquietando o meu coração. Esta trajetória não é religiosa, mas pode ter o apoio da sua religião, de uma terapia, da homeopatia, da meditação e muitas outras alternativas que encontre bem-estar.
A terceira coisa que eu entendi, foi não ter pressa, pois o próprio caminho é o aprendizado. O desenvolvimento do despertar do meu coração generoso era a meta para aprender o amor. E tudo isso me levou a concluir, que não havia nada a ser superado. A dor não me trazia uma proposta de superação. A dor me trazia uma proposta de transformação, de ação, de qualificação, de despertar, de libertar, de continuar minha jornada atendendo o chamado de aprender a ACOLHER A MIM MESMA, e ao PRÓXIMO, utilizando a minha história.
Este foi o motivo pelo qual o Projeto Acolher nasceu, com a proposta de oferecer um ambiente seguro, respeitoso e amoroso de acolhimento. Acredito na responsabilidade de construirmos um mundo melhor, através do desenvolvimento da habilidade do ser de acolher. Identifiquei que mesmo com todo desenvolvimento na comunicação e da tecnologia, a sociedade ainda não atualizou uma forma adequada de acolhimento, continuando com as mesmas frases vazias, devido ao medo de validar a morte como parte da vida. Visando este objetivo, criamos o Treinamento ao Acolhedor, um curso online gratuito em busca do desenvolvimento do ato de acolher, através do amor ao próximo.
Por isso, advogo pelo aprendizado iminente do ACOLHIMENTO nas escolas, com a introdução como disciplina curricular para desenvolver a habilidade de acolher uns aos outros, desde cedo. Desenvolvendo a empatia e a amorosidade nos primeiros passos de formação do ser, o processo terá continuidade em práticas acolhedoras nas empresas, nas comunidades e na família, exercitando o acolhimento mútuo.
Quero propor a prática do terceiro exercício do Método de Acolhimento: "Aprendendo com a Dor". Feche os olhos. Sente-se confortavelmente e respire profundamente umas cinco vezes. Diminua o barulho para que possa relaxar o corpo e a mente. Coloque a sua mão no peito, e com os olhos fechados, visualize o seu coração. Sabemos que ele doi, e que precisa de acolhimento e carinho. Um fenômeno diferente acontece, você consegue assistir como se fosse um espectador o que se passa com as suas emoções. Neste momento, faça uma pergunta mentalmente: Apesar da dor ser grande, o que tenho aprendido com ela? Faça uma anotação para que você se lembre disso mais para a frente.
Este exercício faz parte do Método de Acolhimento, por eu ter entendido que o objetivo na vida não é sofrer com a dor. Ao contrário, ela nos convida a nos conhecermos cada vez mais em cada oportunidade vivida e amadurecermos como espírito.
Rosana De Rosa, formada em psicologia, reside na Florida/USA, cofundadora do Projeto Acolher Perdas e Luto, uma organização sem fins lucrativos, que visa acolher as pessoas online, que estão vivenciando a partida do seu ente querido. Para ser acolhido ou voluntário, inscreva-se no site www.projetoacolherperdaseluto.com.br e visite nossas redes sociais @projetoacolherperdaseluto. Se desejar fazer alguma pergunta ou comentário sobre os artigos escreva no meu Instagram @rosanaderosa.






