Falar de morte nunca é simples.
Ela nos toca onde mais somos frágeis: no afeto, na saudade, naquilo que amamos e tememos perder.
Talvez por isso esse tema cause tanto desconforto. Ao pensar em suicídio, acidentes, tragédias coletivas, crianças que partem cedo ou doenças inesperadas, nosso coração se aperta e a mente se enche de perguntas.
E, no íntimo, todos nós carregamos aquela inquietação silenciosa:
Por quê? Por que isso aconteceu? Por que agora? Por que comigo?
Shakespeare já dizia que existem mais mistérios entre o céu e a terra do que nossa filosofia consegue imaginar. E Allan Kardec nos convida a olhar a morte com mais verdade e menos medo, pois só o entendimento sereno pode aliviar o peso da incerteza.
A partida inevitável que ninguém quer conversar a respeito.
A maior certeza da vida é também a mais evitada: um dia partiremos.
Para o espiritismo, “partir” é desencarnar, voltar para casa.
E mesmo acreditando nisso, o simples pensamento da transição já faz o coração disparar.
O medo não está na morte — está na separação, na forma como ela acontece, no vazio que deixa e nos questionamentos que nos impõe.
Quando tragédias atingem muitas pessoas de uma só vez — terremotos, tsunamis, acidentes, incêndios, guerras — parece que o mundo inteiro para por um instante. O silêncio que fica depois dessas notícias é quase um pedido de explicação do nosso próprio espírito:
“Deus, onde Você estava?”
Entre o céu e a terra, alguém sempre responde.
A ciência explica a causa física: placas tectônicas, falhas humanas, descuidos, fenômenos climáticos.
A religião tradicional muitas vezes se cala por falta de respostas.
Mas o Espiritismo, com sua simplicidade que acolhe, nos lembra que há uma ordem invisível sustentando tudo.
Uma ordem guiada por amor, mesmo quando a vida parece dura demais para compreendê-lo.
A matéria é frágil, mas o espírito é eterno.
O corpo sente, mas é a alma que aprende.
E, depois da separação, nenhuma dor física a alcança mais.
Só essa pequena verdade já traz um alívio imenso:
a morte não humilha o espírito, não o mutila, não o aprisiona.
Ela apenas abre a porta.
As grandes dores que movem o mundo.
Muitas calamidades que nos assustam fazem parte do movimento da vida no planeta.
A Terra respira, se ajusta, se renova.
E, quando isso coincide com a presença humana, o choque é inevitável.
Mas o Espiritismo nos mostra que existe também uma lógica espiritual por trás desses eventos.
Grupos inteiros que conviveram no passado, que erraram juntos, que feriram juntos, podem retornar ao plano espiritual também juntos — não como punição, mas como reconciliação, resgate, cura coletiva.
É difícil, é doloroso, mas é justo.
E, acima de tudo, é educativo.
Quando a humanidade chora junto.
Tsunamis, terremotos, o acidente do voo da TAM, a tragédia da Boate Kiss…
Cada um desses eventos deixou cicatrizes profundas.
Mas também despertou algo extraordinário: solidariedade.
Nunca vimos tanta gente ajudando desconhecidos, tantas mãos se estendendo, tanta lágrima compartilhada.
A dor que dói em muitos desperta o melhor que existe em nós.
E Kardec já dizia: nas grandes calamidades, a caridade se emociona.
Os corações se abrem.
As máscaras caem.
As pessoas lembram que pertencem umas às outras.
O sofrimento silencioso: aquele que ninguém vê.
Mas, enquanto grandes tragédias mobilizam o planeta, há uma multidão sofrendo no anonimato: doentes esquecidos, idosos solitários, famílias abaixo da linha da pobreza, crianças sem o mínimo para viver com dignidade.
Eles não aparecem no noticiário.
Eles não provocam campanhas globais.
Mas são justamente esses que a verdadeira caridade precisa encontrar — sem alarde, sem foto, sem aplauso.
O bem mais bonito é o que se faz no silêncio.
Por que a dor existe, afinal?
Porque ela transforma.
Porque ela acorda.
Porque ela purifica aquilo que o orgulho, o medo e a indiferença tentam esconder.
A Lei de Destruição não é uma lei de punição.
É uma lei de renovação.
Assim como o outono derruba folhas para que a árvore renasça na primavera, a vida remove o que está velho para que algo melhor possa brotar.
A dor de hoje prepara o bem de amanhã.
E, mesmo nas noites mais escuras, o espírito caminha — sempre — para a luz.
O que Deus quer de nós?
Que avancemos.
Que aprendamos.
Que amemos.
Que façamos o melhor que podemos, agora, com aquilo que já sabemos.
Como disse Manoel Portásio:
“É preciso descobrir quanto bem se é capaz de fazer agora para que o próprio crescimento não se detenha.”
Essa é a mensagem mais profunda da Lei de Destruição:
não tema o fim, porque todo fim é, na verdade, um começo.
Não tema a dor, porque ela é professora — e não carrasca.
Não tema a morte, porque ela apenas devolve o espírito à plenitude.
E, enquanto estivermos neste mundo, façamos dele um lugar mais leve, mais justo e mais fraterno.
Porque o amor, esse sim, é eterno — e ninguém o destrói.






